Esther Sarto
Esther Sarto
a vida acontece
e o milagre do nascimento é uma luta
impulsionado para essa terra estranha,
desde o primeiro respiro é necessário se erguer
há combates fáceis e árduos; há guerreiros e sobreviventes
em um ringue,
bota-se as ataduras e eleva-se
esperando vencer
bom,
eu não tenho vencido nada
sinto que meu oponente sou eu
eu que me conheço e eu que não tenho mais forças
eu que quero desistir e eu que acredito não poder
eu que tenho uma teimosia tão profunda quanto esse solo
eu que tenho cicatrizes extensas como os rios do himalaia
eu não sou calma, eu não sou veloz, eu não sou flexível
eu já nem sou mais brasa, acredito que seja cinzas
vejo, dentro de mim, a cólera do fim da guerra
uma batalha egoísta que não entendo,
mas que existiu e findou-se
sem ganhos e com muitas perdas
a impermanência não é o fim, a morte não é o que sepulta;
a rigidez dos meus sonhos é
um futuro inelástico é a única possibilidade não viável que assisto,
que sinto e na qual, hipoteticamente, sobre"vivo".
é como uma agulha no dedão
tão profunda que não sou capaz de tirar,
minha inflexibilidade não permite que eu a alcance
a dor me faz buscar uma distração e logo me enrolo n'uma teia;
mexo de um lado para o outro
e sou transpassada pelo desconforto
por que tenho que me acostumar com isso?
por que estou tentando tornar isso comum?
tão dolorida e sensibilizada -
ainda assim, não sou capaz de ser ouvida pelos demais
ninguém mais pode me salvar e isso me torna tão solitária
anseio transformar o meu coração; uma rocha
parece oportuno torná-lo em carvão
posso facilmente queimá-lo até as cinzas e sucumbir
ou manchar a todos por isso
quero culpá-los [e essa amargura também pinta o meu interior]
impactar suas almas para que o grande Juiz possa julgá-los
mas todas essas memórias são criadas pela minha mente
como posso parar de alimentá-los?
como posso deixá-los me controlar?
acreditei que o sofrimento poderia me tornar mais forte,
mas corrompi o meu sistema com essas ideias -
desde quando deixei de ser um organismo vivo para ser virtual?
atravessada e modificada pelo exterior,
não encontro um conforto nessa existência
[sozinha ou comigo,
sozinha ou com os outros]
Courier of the Sun, oil painting by montiljo
os Tempos inférteis chegaram
e me pergunto como a existência das pessoas continuam
pois pareço ficar presa em uma redoma
[sem tempo]
onde os pensamentos quase não chegam
e as emoções se enrolam em seu próprio fluxo
intercalando-se
tudo está à flor da pele,
mas não há nenhuma semente aqui
a única vida presente, sou eu, e chego a duvidar disso
as palavras alheias sussurradas chegam como uma lembrança antiga no fundo do meu cérebro:
“a monotonia é uma oportunidade de se reinventar”
mas todo o meu interior está apodrecendo
-
o último figo que caí e fica a mercê das possibilidades
não servi de alimento, não fui pisada e estou intocada
deteriorando de fora para dentro e algumas vezes, de dentro para fora
como os artistas sobrevivem?
mais do que um luto; este intervalo não para
é melancólico e árduo
o ar é tão denso que pesa nos pulmões e quase o vemos trazer a nossa permanência
não há permissões para rezas [seja de agradecimento ou pesar]
só o sentir
mas já senti um ciclo inteiro e estou desaparecendo
os Tempos inférteis chegaram
e estou sucumbindo [a Eles].
dia após dia,
o cansaço de amar bate na minha porta
eu que estava tão acostumado a balancear na cadeira
- exilado -
e olhar para a imensidão de um deserto
tenho recebido visitas constantes
implorando um pouco de pão e um pouco de colo
mas há tão pouco para um velho como eu
voltei de guerra a cinco anos atrás e me escondi nessa cidade esquecida por deus
o sol banha todas as minhas feridas
e deixa as cicatrizes mais evidentes
tenho esvaziado a dispensa para dar aos necessitados
esquecendo que vou sumindo junto dos cuidados
querida, faz um tempo desde que alguém se atentou aos meus machucados
mas pior do que o vermelho na pele
é o buraco na minha alma que não pode ser visto por esses olhos
a solidão da casa combina um pouco com a dor da guerra
mas enquanto, eu lutava para viver do outro lado do mundo
aqui me encontro batalhando para sobreviver mais um dia
e gostaria de não te desanimar,
mas meu sonho está desaparecendo como a vegetação escassa
quero encher o meu copo com álcool, mas prometi a mamãe que não voltaria para essa vida boemia
a verdade é que me transformo em alguém que não me orgulho
no entanto, já não gosto muito de quem eu sou agora
estou me perdendo quando dou tudo de mim para os outros
o autocuidado não é uma prática ensinada aos homens da minha época
e como o cenário que eu encaro pelas manhãs
pareço um pouco esse ermo
- infértil e vazio -
oco do amor que nunca dei para mim ou recebi em troca
e vou seguindo,
dia após dia,
esforçando-me para ser gentil com esses desconhecidos
até que chegue a minha hora.
(via amargedom)
[tradução]: você precisa relaxar e descansar.