que os deuses me carreguem. levem o meu coração e o pouco espírito que ainda resta nesse corpo. que joguem essa carcaça enrolada em uma âncora para o fundo do mar. que nenhum ser vivo possa enxergar alguma prova da minha existência na terra. quero me desintegrar com todo barro que cobre esse globo. talvez eu possa adubar o plano que me sustentou. as minhas palavras serão apagadas porque todas foram profanas. eu fui egocêntrica. meu sangue será diluído na água e todo vermelho se transformará em transparência, porque gostaria de ser sido cristalina, mas nasci suja de fuligem e com cheiro de couro. a minha vida foi uma batalha de titãs: quase divina, quase mundana.
the blood moon over the temple of Apollo | Corinth, Greece
eu sou ruim até os ossos, mas tenho um coração e ele é frágil. gostaria que pudesse lembrar disso antes de atirar as suas facas em minhas costas. eventualmente, todos se vão. ninguém consegue permanecer mais do que algumas estações no deserto que neva ou alaga. acredito que sou algo que não deu certo e como castigo, qualquer caminho que eu escolha, vai me partir ao meio. a verdade é que não sou mais interiça e não deve ter existido um dia que eu tenha sido após a partida da minha mãe. e por isso, não posso abaixar as minhas defesas.
View of the Redwood forest from the road by David Fulmer
hoje é o tipo de dia que parece que tudo tá errado. acordei agitada, tentei me comunicar desesperadamente, chorei sem querer e parece que enxerguei uma alucinação. pedi para que deus ou sabe se lá quem manda nesse universo acabasse com tudo o mais rápido possível. porque não sei até onde posso levar essa cabeça sem destruir o meu espírito. eu quero tudo que eu fui de volta, porque agora parece que sou apenas carcaça. sinto que o vento pode me levar e um raio pode me partir. me dou conta de como a presença de todo mundo em minha vida é apenas uma pequena ou longa passagem, mas jamais uma estadia. meu coração é despedaçado. foi, é e vai ser. estou mais solitária do que quando cheguei a esse mundo.
tudo parece mais errado quando eu sento nessa cadeira e temo o horário. as minhas entranhas tremem e o meu cérebro começa a fantasiar sobre coisas irracionais. porque todos os meus medos são irracionais. os dias onde a madrugada era aliada da minha criatividade e conversas profundas acabaram. é engraçado como sentimos falta de tudo que acaba (mesmo dos momentos ruins). estamos constantemente nos adaptando as diversas situações que podem ou não serem confortáveis e a quebra de uma rotina assim é suficientemente dolorosa. eu realmente sinto saudade das minhas companhias solitárias. sempre pensei que o momento anterior fosse o mais doloroso da minha vida, mas o que estou passando nessa realidade de rostos e conversas me destrói. vejo constantemente pedaços de mim que ficam para trás sem que possa me despedir. minha boca ainda aprecia os pedaço de melancia que engoli há duas horas e isso faz com que eu me arrependa de comer, depois de ter dado adeus para algumas pessoas porque elas valiam mais do que eu poderia oferecer e de ser tão sensível. nenhuma ideia é organizada, porque a verdade é que a vida tem sido um grande vendaval e eu estou bagunçada do coração até a alma.
via weheartit
tudo desandou e eu sei que é responsabilidade minha. não posso fugir ou jogar em alguém esse enorme peso que carrego nas costas. mas a verdade é que tenho me tornado cética para conseguir aguentar a mim mesma. todos os meus medos não me fazem mais forte e não acabam por não permitir que eu viva da melhor forma. eu tenho sentido tanta raiva que poderia destruir todo o meu esqueleto através de chutes e socos. a realidade é que tenho esse desejo por acabar com tudo que existe em mim. não sou tão boa e talvez, nem seja alguém. não aguento mais o silêncio das minhas palavras e o barulho dos meus pensamentos. preciso tirar a grande armadura e a máscara pesada que carrego para descansar ou tudo ao meu redor será demolido pelos meus sentimentos. eu não faço ideia como e nem quando, mas surgiu uma onda que me acertou e me derrubou. sei que é necessário cair sete vezes e levantar oito, mas preciso permanecer em pedaços agora.