sou incapaz de amar com todo meu coração,
pois há uma eternidade, esse deixou de ser inteiro
logo,
sinto incompletamente, de maneira falha e aleijada
como decorreu da minha criação:
cresci sem pais -
e, hoje, viverei sem grande amores.
uma colônia de formigas e o ácido em meu estômago.
queima em um lembrete da nossa última discussão - devo considerar um possível e breve desfecho? e elas sobem pelos azulejos encardidos que têm todas as cores, menos as originais.
existe uma espécie de sincronia única vinda desses insetos que me fazem ficar estática em uma análise.
o seu instinto pode ser afetado? existe uma preocupação com a realização do seu propósito quando já nasce carregando-o?
o ar quase falta. é preciso que eu me lembre de respirar. um, dois, três e expire. lembrei de quando era tão leve que era quase capaz de voar - poderia acreditar que era possível quando suas palavras eram pensadas antes de serem dirigidas a mim.
agora o meu coração parece tão pesado quanto uma âncora. costumava acreditar que a única coisa capaz de me afundar era a minha família, mas percebo que não e essa foi uma situação em que coloquei a mim mesma por falta de amor e cuidado.
rebobino toda a situação.
três anos seriam suficientes para resolver. muitas feridas foram desenvolvidas nesse tempo. voltar permitiria que não existissem tantos machucados que são constantemente abertos. eu faço isso.
é como atear fogo. a raiva, o medo, a responsabilidade. possivelmente o meu modo de amar.
as formigas ficam desnorteadas ao sentirem o álcool e cada parte da minha garganta ao estômago incendeiam em resposta.
o que eu fiz de errado? por que me sinto fora de órbita?
solto o ar que nem imaginava estar segurando. é assim, costumo agarrar todas as emoções que surgem em meu peito e não permito a saída. as sensações são hóspedes que desejo transformar em moradores sem acreditar que poderia ser levada à morte.
as formigas mordem e nem isso é capaz de me tirar do transe. estou morrendo. morri inúmeras vezes e continuo morrendo, caso me perguntem o por quê não me matei, digo que é porque estou morta. é fácil continuar nessa linha.
conheço o caminho como esses insetos que sempre retornam para o formigueiro. e eu volto para caverna - isolada e machucada. não existe mais fogo, mas cada parte de mim está ardente.
George Harrison (via quotemadness)
[tradução]: está tudo na mente.
René Magritte (Belgian, 1898-1967), Le pain quotidien [Daily Bread], 1942. Oil on canvas, 91.6 x 69.8 cm.
Juansen Dizon (via juansendizon)
[tradução]: o autocuidado é uma responsabilidade importante que se deve assumir para alcançar um mundo interior rico.
algumas coisas começaram a fazer sentido.
o único jeito do meu cérebro aceitar essas verdades foram pela negativa que carregavam. mas dessa vez, isso não me derrubou, me libertou.
não posso me afastar fisicamente do que me abala porque não é uma solução para encontrar a paz desde que todo caos se encontra unicamente na minha mente. não devo procurar o equilíbrio no exterior, mas aprender a exercê-lo no interior.
não estive e nunca estarei na condição de fazer escolhas para os outros. não decido como eles agem, pensam, o que amam ou desejam e muito menos, o carma que carregarão.
não existe a possibilidade de viver de uma forma saudável se eu não for capaz de me amar e me livrar do excesso de autocrítica que acaba criando um monstro chamado medo. tive tanto medo que adoeci, tive tanto medo que transformei o meu corpo em um campo minado.
não conseguimos nos afastar de nossas mães nem quando isso queima cada parte dos nossos órgãos, porque elas surgem como uma extensão da nossas peles. temos suas micro-partículas desde o começo de nossas vidas e até o fim, permanecemos com suas pequenas dimensões.
não é possível controlar ou prever o futuro. não existe uma forma de viver sem tomar riscos e cometer erros. e isso é incrível, porque mostra a humanidade que existe em nós. mas obviamente, não deve ser uma brecha para ser irresponsável e machucar os outros. é uma chance para saber que é possível seguir em frente.
não é certo levar tudo para o pessoal, ninguém precisa ser careta o tempo todo. as melhores lembranças são aquelas que carregam como fonte-motora a nossa intuição - que é selvagem e infantil e em grande escala, a participação de alguém (seja como protagonista ou coadjuvante). é preciso manter o coração aberto.
não existe uma forma de se livrar do ego. é impossível. mas podemos mediar de maneira que não seremos narcisistas, doentes ou humilhados. porque o seu excesso pode criar uma cólera detestável e a sua ausência pode roubar a nossa essência. escolha as suas lutas e batalhe conhecendo as suas ferramentas.