quero viver sem ter lutar. estou cansada dos meus dias no campo de batalha.
como é conseguir aproveitar a vista sem ter que utilizar um elmo? como é sentir o coração bater sem ter um escudo em cima? como é possível seguir os dias sem usar uma armadura? como é virar as costas e não esperar um golpe letal? como é agir descontraidamente em uma multidão? como é possível confiar e não esperar ser traído?
a verdade é que eu encarei o manto de guerreira como uma coroa e coloquei sob os meus ombros, esquecendo que a única forma deles serem lembrados é com uma trágica morte em realização de algo maior que os próprios, mas como um ato poderia ser mais do que a minha vida? eu levantei os punhos e coloquei um pé defronte o outro como uma pose artística que vênus utilizaria para encantar os telespectadores enquanto eu faria para que temessem. escolhi o sangue e pintei todos os meus sonhos com vermelho escarlate para que não houvesse dúvidas: sou o caos, a destruição, a guerra. queimei toda a esperança que existia e usei as cinzas para pintar o meu rosto em consagração, derreti ouro sob o meu coração para que soubessem que nada poderia machucar. ouçam o meu grito e sinta a minha fúria! não faço mais parte da natureza. ela é mutável e eu sou intocável.
brandei diante de todos.
e agora, diante do apocalipse, olho para trás e imagino como poderia viver sem lutar, como seria viver sem lutar. que sabor teria a vida senão ferrugem e poeira? que cor teria o céu senão vermelho fogo? que toque teria o outro senão áspero? que sentimento existiria senão ódio, dor, inveja e terror?