hello there
vulcano
@fuckaneurysming
maiamero, 21 • conjunto expositivo de poesias visuais e textuais. expresso as minhas emoções com todas as linguagens que posso dominar e algumas vezes, utilizo a do outro para ser compreendida.
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  • quero escrever uma carta aberta e expor em meio a praça pública, mas não faria diferença desde que somos invisíveis e nossos sentimentos não são ouvidos, são calados.
    nossas bocas se abrem e só temos direito ao primeiro choro antes de todas as nossas paixões serem suprimidas e nossos desejos serem empurrados pela nossa garganta junto com o ódio que nos é ensinado. nada é mais familiar em nossa fisiologia do que a repulsa a nós.
    eu me lembro pouco de ser criança, mas recordo dos baques sofridos durante o meu crescimento:
    todos os elogios direcionados a minha mãe eram ligados a sua capacidade de interpretar a mística feminina e atravessar as jornadas triplas. nunca sobre o seu grande coração ou sua paixão pela poesia. minha irmã aos quinze costumava fazer séries de exercícios em um quarto de 5m² para tentar emagrecer. o amor que ela tinha por simplesmente correr sem rumo desapareceu. minha prima entrou na natação e apenas comentavam como o seu corpo afinava. nunca admiravam a sua capacidade de atravessar um tanque de água com o triplo da sua altura em uma dança sem coreografia.
    a sentença de tornar-se mulher parece óbvia: ser vista pelo seu físico e não estar em paz com o próprio. (e apesar de residir nele, não ser dona dele)
    conheci a tristeza e fiz laços fortes. alimentava-a como a mim e algumas vezes, em dobro. a tristeza foi cavando um buraco em mim e eu apenas tentava preencher até o dia que fui acusada por isso. tentei despejá-la, permiti que a própria fervesse dentro de mim e depois que endurecesse. algum tempo depois, acolhi o pesar e nada é mais perturbador em uma casa que esse visitante que se esconde e multiplica, rapidamente pesando no estômago.
    o arrependimento não é só um nó na garganta, mas uma rocha sob o umbigo que não faz nada ser digerido.
    se os homens acham difícil dormir após uma ceia farta em que entopem-se de morte e gordura, imagina se vivessem com essa sensação de indigestão. as mulheres vivem com a culpa e dão suas migalhas para ela.
    uma década depois da minha primeira sentença e todas as curvas que desejei quando visualizava aquelas mulheres parecem medonhas demais. rapidamente naturalizei todo o mau estar do século, demonizado a saúde e priorizando o padrão estético. o fértil parece doente e preguiçoso, enquanto a inanição é um sonho. quantas de nós são ensinadas a odiar a própria força? todas. e mesmo aquelas que conseguem driblar o processo e reconhecer o seu poder, são sufocadas para jamais ostentá-lo, porque o conforto incomoda o nosso sistema e a tranquilidade presume o óbvio: que somos tudo que precisamos ser.
    o cômico é que mesmo reconhecendo toda a problemática, não sou capaz de ser empática comigo e não consigo parar de seguir o modelo das mulheres ao meu redor - de se odiar. enquanto permaneço deitada, incomodada com ossos sob ossos e uma dor que atravessa minha coluna aos quadris, não penso na vida, mas em uma maneira de não morrer sem quebrar dentes ou correntes, mas meu coração ainda arde e vibra com o poder de cada mulher que consegue ultrapassar esse obstáculo e sonho com o momento de nossa união onde retomaremos a posse não só de nossos corpos, mas de nossas fantasias e de nossas memórias.
    sendo mais do que livres, sendo mulheres.

  • Posted on January 10, 2020.
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    1. fuckaneurysming posted this