dia após dia,

o cansaço de amar bate na minha porta

eu que estava tão acostumado a balancear na cadeira

- exilado -

e olhar para a imensidão de um deserto

tenho recebido visitas constantes

implorando um pouco de pão e um pouco de colo

mas há tão pouco para um velho como eu

voltei de guerra a cinco anos atrás e me escondi nessa cidade esquecida por deus

o sol banha todas as minhas feridas

e deixa as cicatrizes mais evidentes

tenho esvaziado a dispensa para dar aos necessitados

esquecendo que vou sumindo junto dos cuidados

querida, faz um tempo desde que alguém se atentou aos meus machucados

mas pior do que o vermelho na pele

é o buraco na minha alma que não pode ser visto por esses olhos

a solidão da casa combina um pouco com a dor da guerra

mas enquanto, eu lutava para viver do outro lado do mundo

aqui me encontro batalhando para sobreviver mais um dia

e gostaria de não te desanimar,

mas meu sonho está desaparecendo como a vegetação escassa 

quero encher o meu copo com álcool, mas prometi a mamãe que não voltaria para essa vida boemia

a verdade é que me transformo em alguém que não me orgulho

no entanto, já não gosto muito de quem eu sou agora

estou me perdendo quando dou tudo de mim para os outros

o autocuidado não é uma prática ensinada aos homens da minha época

e como o cenário que eu encaro pelas manhãs

pareço um pouco esse ermo 

- infértil e vazio -

oco do amor que nunca dei para mim ou recebi em troca

e vou seguindo,

dia após dia,

esforçando-me para ser gentil com esses desconhecidos

até que chegue a minha hora.