me desculpe, mãe
mas eu gostaria de ser qualquer outra pessoa que não fosse eu mesma
porque quando eu olho para os outros
vejo um futuro que não consigo acreditar existir para mim;
eu fugiria
enterrando todos os pensamentos que me assombram
apagaria esses dias que parecem todos uns iguais aos outros
não só a cópia da cópia - mas uma cópia que nunca se repete,
nunca melhor do que a anterior.
transformaria esse corpo que tanto castigo em pó
e descansaria sob a areia de tulum
eu sou fraca, pai
e não há como uma covarde ser heroína,
então continuo apenas me lamentando e sobrevivendo
rastejando com esse buraco em meu peito
e com esse tornado em minha mente
sonhando com o dia que vou acordar e perceber que essa realidade era um pesadelo
e como eu desejo -
desejo tanto que quase posso viver outra vida em sono
onde eu sei quem eu sou
e não alimento os lobos que me consomem.
eu destruiria tudo se pudesse
mas eu estou ficando velha e estou cansada do meu ego -
e das pessoas, das provações, das suas regras e das conversas
então a minha jornada torna-se uma lareira que finda após o inverno
sem função; sem esperança.
eu pediria a deus, se ele existisse, que mandasse um segundo dilúvio
para transformar esse vulcão em erupção
[que eu sou]
em uma montanha;
e finalmente encontraria um descanso nessa terra.
mas tudo isso é utopia
então continuo acordando e sendo eu mesma, mãe
os meus medos continuam me arruinando, pai
estamos todos sós, porque deus não existe
e ninguém pode me impedir de cavar mais ainda o vazio da minha alma.